segunda-feira, março 16, 2009

OPINIÕES

Há algum tempo, ofereci a dois grandes amigos meus, dois livros do Ondjaki.
A um deles perguntei-lhe o que tinha achado. Vale aqui dizer, que estamos profundamente em desacordo em muitas coisas... como é hábito entre grandes amigos.
Do alto do seu urbanismo profundamente europeu, respondeu-me que achou bonito, mas ainda muito imaturo, quando comparado com os grandes e vetustos ( o adjectivo é meu) escritores europeus.
Claro, não posso estar mais em desacordo. Comprei o último livro do Ondjaki, sobre poesia.
Não resisto a deixar-lhe aqui, um pequeno fragmento.
                    
Tinha aprendido que era muito importante criar desobjectos.
Certa tarde, envolto em tristezas, quis recusar o cinzento.
Não munido de nenhum artefacto alegre, inventei um espanador de tristezas.
Era de difícil manejo - mas funcionava.

Grande abraço
GED

8 comentários:

F.Marta'seveN disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
F.Marta'seveN disse...

Henrique

Ainda não li nenhum livro do Ondjaki. Ultimamente, ou melhor, de há 31 anos a esta parte (passou depressa…) pouco tenho lido, infelizmente. Tem vencido a minha eterna preguiça. No entanto, há coincidências dos diabos. Um escritor que me é quase desconhecido (triste ignorância…), surge-me de repente na Pública de 15.03.09 que folheava distraidamente. Dando uma olhadela ao cabeçalho de uma das páginas leio:
- “o que sei sobre as mulheres”. O resto da página mostra-nos o rosto de um jovem que bem poderia se uma jovem. Dúvida desfeita, ao lado em letra vermelha “Ondjaki, 31 anos, escritor angolano”. Na página seguinte: “Ondjaki”- por Ana Sousa Dias. Li, gostei e guardei a revista para reler com mais calma e atenção.
Hoje, ao dar a minha habitual espreitadela ao “NOITE VERTICAL” (começa a tornar-se num vício), nem de propósito! Dou de caras com o teu “post” – “Opiniões”.
Talvez o teu amigo tenha alguma razão ou talvez não. Os anos que “pesam” em cima dos ombros, aquilo que vivemos, o que nos é dado a observar, torna-nos críticos, ainda mais críticos e exigentes. E como não pode deixar de haver certa imaturidade em algo escrito por um jovem de 31 anos? (de hoje)
Ainda tem pela frente uns vinte e tal, mais ou menos, anos para atingir a grandeza e respeitabilidade dos tais escritores europeus ou para que a sua mensagem atinja a tal “necessária “ maturidade, aquela que nós poderemos achar agora relevante. É no entanto suficientemente maduro para escrever o excerto que tu transcreves.

Os seguintes, segundo a jornalista Ana Sousa Dias, resultantes de uma troca de e-mails com o Ondjaki, também revelam maturidade sem esconderem a juventude do autor…

“Acho que o que me atrai numa mulher é o mistério. Os olhos. O nariz. E as mãos. O resto depois se descobre.
Quando me apaixono fico à toa... Gosto das mulheres. Não apenas afectiva ou sexualmente, mas como seres da "outra margem". Sinto que estamos, homens e mulheres, em margens distintas. Respeito muito as mulheres por saberem, desde sempre, quase instintivamente, aturar as crianças e os homens. E acho que ainda falta muito caminho a percorrer para haver uma plena igualdade social entre homens e mulheres.”
… “Em Angola os corpos movem-se de modo diferente (comparativamente a Portugal), e as danças e os ritmos... Geram uma mulher talvez mais intensa e sensual. Mas a sensualidade é também geográfica, isto é, talvez não existam mulheres mais sensuais que outras, simplesmente a sensualidade vai-se revelando de modos distintos, com instrumentos e modos diferentes...”

Um grande abraço
Fernando Marta

Alice Almeida disse...

Henrique
Já li quase todos os livros do Ondjaki. Ainda não tenho o último mas já li alguns excertos do mesmo. Também não resisto em deixar aqui, "a garça e as tardes"

encontrei uma garça gaga.

atropelava-se a si própria enquanto voava

com isso considerava-se aleijada.

pedi-lhe emprestada a gaguez.


hoje a garça é feliz.


eu ganhei o hábito

de gaguejar tardes.

Na minha opinião até a prosa dele é poesia.
Fernando,
Vence essa preguiça e "saboreia" Ondjaki
Beijinhos aos dois
A vossa
Alice Almeida

GED disse...

Fernando
Vale a pena visitares o mundo de Ondjaki. Depois me dirás, se está maduro ou não.
Abraços

Alice
Completamente de acordo. É um mundo novo que saboreamos.
Bjs.

Henrique

GED disse...

Fernando.
Compra dele "Os da minha rua" e o "espanador de tristezas"
Abraços
Henrique

GED disse...

Fernando.
Compra dele "Os da minha rua" e o "espanador de tristezas"
Abraços
Henrique

Sampas disse...

Meus caros amigos, o amigo a que se refere o nosso grande amigo sou eu!!! O Henrique quis poupar-me à uma eventual incompreensão daqueles que gostam do Ondjáki e quis ocultar o meu nome. Como ele sabe bem, eu assumo sempre as minhas opiniões. E assumo esta. Embora esta não seja rigorosamente aquela que ele transmitiu no post. Eu explico-me: Começo por dizer que a minha opinião não se refere apenas ao Ondjáki mas sim a toda a literatura angolana. Acho que está ainda, e muito naturalmente, a dar os primeiros passos, e é nesse sentido que a acho imberbe. E tem todos os tiques das literaturas nacionalistas emergentes. Um dos mais evidentes é a procura e criação excessiva (não poucas vezes “a martelo” como diria a minha querida D. Cecília) de novos vocábulos apenas para fugir à língua padrão portuguesa. É mesmo um tique de quase todos os escritores angolanos. (Nem se dão conta que estão a imitar o Luandino Vieira). O outro, mais importante até, é as fronteiras do seu universo ficarem-se pela sua realidade regional. Não fala, não aborda, os problemas intemporais do homem. Não nos fala da alma. Fala-nos dos problemas e da vida das “almas “ daquele lugar (por sinal aquele onde todos nós passámos as nossas infâncias e é isso que nos encanta). E é por isso que, em minha opinião, não tem ainda a grandeza da grande literatura. Sei lá, por exemplo: O Júlio Dinis sem dúvida que foi um escritor com méritos (como tem o Ondjáki) mas é uma escrita datada, de um Portugal regional e bucólico que já não existe. É um retrato de época (que também é importante que exista) mas não tem a intemporalidade de um Eça, de Camilo ou de um Saramago (de que eu não gosto particularmente). Não se comparam em grandeza. Hoje lemos As Pupilas do Senhor Reitor com saudade… mas lemos hoje e amanhã O Amor de Perdição com a mesma alma e paixão.
Meu querido Henrique, fiz-me entender melhor? Na comparação que fiz não me referi a especificamente aos grandes escritores europeus, referia-me aos grandes escritores, à grande literatura sejam eles europeus, americanos ou sul-americanos. E tu que leste José Luís Borges (eras um admirador) sabes certamente de que falo. Vou ser mais claro: não ponho o Ondjáki um Steinbeck (para não falar dos clássicos gregos). São planos e prateleiras diferentes. Da mesma maneira que não ponho o Tom Jobim (que tu sabes, adoro, e que todos os dias oiço) no mesmo de um plano Mozart. Não pertenço a essa (nova) escola que tudo compara e tudo relativiza. Para mim na cultura (como na arquitectura) há primeiros e segundos planos. Entendes-me? E, em última, análise tudo isto que eu digo não passa de uma opinião. A minha. Há literaturas que não me seduzem. Mas deixa-me dizer que gostei (à parte o desobjecto) da poesia que transcreveste.
Meu caro, a propósito de tudo isto, tu também tens a tua fixação… (embrulha…)
Um grande, grande, abraço. Até Terça.

Manel

Sampas disse...

Meus caros amigos, o amigo a que se refere o nosso grande amigo sou eu!!! O Henrique quis poupar-me à uma eventual incompreensão daqueles que gostam do Ondjáki e quis ocultar o meu nome. Como ele sabe bem, eu assumo sempre as minhas opiniões. E assumo esta. Embora esta não seja rigorosamente aquela que ele transmitiu no post. Eu explico-me: Começo por dizer que a minha opinião não se refere apenas ao Ondjáki mas sim a toda a literatura angolana. Acho que está ainda, e muito naturalmente, a dar os primeiros passos, e é nesse sentido que a acho imberbe. E tem todos os tiques das literaturas nacionalistas emergentes. Um dos mais evidentes é a procura e criação excessiva (não poucas vezes “a martelo” como diria a minha querida D. Cecília) de novos vocábulos apenas para fugir à língua padrão portuguesa. É mesmo um tique de quase todos os escritores angolanos. (Nem se dão conta que estão a imitar o Luandino Vieira). O outro, mais importante até, é as fronteiras do seu universo ficarem-se pela sua realidade regional. Não fala, não aborda, os problemas intemporais do homem. Não nos fala da alma. Fala-nos dos problemas e da vida das “almas “ daquele lugar (por sinal aquele onde todos nós passámos as nossas infâncias e é isso que nos encanta). E é por isso que, em minha opinião, não tem ainda a grandeza da grande literatura. Sei lá, por exemplo: O Júlio Dinis sem dúvida que foi um escritor com méritos (como tem o Ondjáki) mas é uma escrita datada, de um Portugal regional e bucólico que já não existe. É um retrato de época (que também é importante que exista) mas não tem a intemporalidade de um Eça, de Camilo ou de um Saramago (de que eu não gosto particularmente). Não se comparam em grandeza. Hoje lemos As Pupilas do Senhor Reitor com saudade… mas lemos hoje e amanhã O Amor de Perdição com a mesma alma e paixão.
Meu querido Henrique, fiz-me entender melhor? Na comparação que fiz não me referi a especificamente aos grandes escritores europeus, referia-me aos grandes escritores, à grande literatura sejam eles europeus, americanos ou sul-americanos. E tu que leste José Luís Borges (eras um admirador) sabes certamente de que falo. Vou ser mais claro: não ponho o Ondjáki um Steinbeck (para não falar dos clássicos gregos). São planos e prateleiras diferentes. Da mesma maneira que não ponho o Tom Jobim (que tu sabes, adoro, e que todos os dias oiço) no mesmo de um plano Mozart. Não pertenço a essa (nova) escola que tudo compara e tudo relativiza. Para mim na cultura (como na arquitectura) há primeiros e segundos planos. Entendes-me? E, em última, análise tudo isto que eu digo não passa de uma opinião. A minha. Há literaturas que não me seduzem. Mas deixa-me dizer que gostei (à parte o desobjecto) da poesia que transcreveste.
Meu caro, a propósito de tudo isto, tu também tens a tua fixação… (embrulha…)
Um grande, grande, abraço. Até Terça.


Manel