quinta-feira, maio 12, 2022

AGOSTINHO NETO

 


Tive o enorme privilégio de o conhecer em vida. Chorei no seu funeral.

Hoje faria 100 anos.Um dos maiores homens que África já teve.  O pai da nossa Nação.

Deixo aqui um dos meus poemas preferidos.


        Adeus à hora da largada

        Minha Mãe
        (todas as mães negras
        cujos filhos partiram)
        tu me ensinaste a esperar
        como esperaste nas horas difíceis

        Mas a vida
        matou em mim essa mística esperança

        Eu já não espero
        sou aquele por quem se espera

        Sou eu minha Mãe
        a esperança somos nós
        os teus filhos
        partidos para uma fé que alimenta a vida

        Hoje
        somos as crianças nuas das sanzalas do mato
        os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
        nos areais ao meio-dia
        somos nós mesmos
        os contratados a queimar vidas nos cafezais
        os homens negros ignorantes
        que devem respeitar o homem branco
        e temer o rico
        somos os teus filhos
        dos bairros de pretos
        além aonde não chega a luz elétrica
        os homens bêbedos a cair
        abandonados ao ritmo dum batuque de morte
        teus filhos
        com fome
        com sede com vergonha de te chamarmos Mãe
        com medo de atravessar as ruas
        com medo dos homens
        nós mesmos

        Amanhã
        entoaremos hinos à liberdade
        quando comemorarmos
        a data da abolição desta escravatura

        Nós vamos em busca de luz
        os teus filhos Mãe
        (todas as mães negras
        cujos filhos partiram)
        Vão em busca de vida.


terça-feira, maio 10, 2022

PARA MEMÓRIA FUTURA

"Outras formas de causar problemas a Putin"

euronews: "Tem estado a trabalhar na bússola estratégica da UE. Não é uma solução mágica, mas, será que pode ser útil para a segurança europeia?"

Josep Borrell: "Sim. A guerra na Ucrânia tem efeitos colaterais positivos. Desculpe dizer positivo quando tantas pessoas estão a morrer e um país está a ser destruído. Mas sem esta guerra não estaríamos a tomar medidas para nos vermos livres da nossa dependência energética da Rússia. Sem esta guerra, estaríamos na situação anterior. Não estaríamos conscientes de que a Europa está em perigo, é tão simples quanto isto. E se estamos em perigo, devemos ser adultos e estar preparados para enfrentar esses perigos".

euronews: "E o alargamento da União Europeia? Veria países como a Ucrânia, a Moldávia e a Geórgia na União Europeia até 2030?"

Josep Borrell: "Não consigo pensar em datas. Vamos esperar pelo trabalho da Comissão, que vai dar um parecer sobre como proceder face aos pedidos de adesão da Ucrânia e de outros países. E não se esqueça que, nos Balcãs, há também seis Estados à espera da adesão".

euronews: "E como deve a Europa posicionar-se num mundo dominado pelas armas?"

Josep Borrell: "É a chamada militarização das interdependências. Ficamos dependentes de alguém e depois isso é usado como uma arma contra nós. Temos de ser mais autónomos. Temos de ter uma forma de autonomia ou responsabilidade estratégica. Com a pandemia, descobrimos que na Europa não produzíamos sequer uma grama de paracetamol, o que é bastante fácil de produzir, mas era muito mais barato produzi-lo noutros países. Comprar barato é uma coisa. E ter a possibilidade de obter um produto é outra coisa, quando se vive uma crise. Talvez tenha sido mais barato ontem, mas hoje é incomportável". Defender a liberdade e lutar contra os que lutam contra a Ucrânia terá um custo. E os políticos devem ter a coragem de explicar ao povo que este custo tem de ser aceite, caso contrário o custo será muito maior

Josep Borrell, alto representante da UE para os Negócios Estrangeiros

Josep Borrell: "Fala-se muito da proibição da compra de petróleo russo. Há outras formas de causar problemas a Putin: os seguros. Se decidirmos que as nossas companhias de seguros não fazem seguros ao transporte de petróleo russo, nem mesmo para a Europa. Em todo o mundo os russos vão enfrentar um grande obstáculo para exportar o petróleo, não para a Europa, mas para o resto do mundo".

euronews: "A guerra, infelizmente, terá enormes impactos globais ao nível da segurança alimentar, da energia e da segurança. Qual é, qual deve ser o plano a longo prazo?"

Josep Borrell: "O que importa é ter um mundo baseado em regras, porque não há regras. Há uma regra: a regra do mais forte. Temos vindo a construir a Europa como um jardim francês, ordenado e geométrico. O resto do mundo é mais como uma selva. E se não queremos que a selva invada o nosso jardim, temos de pagar esse preço. Usamos a palavra solidariedade, mas solidariedade não significa nada se não houver um preço. Se não houver um custo, podemos expressar solidariedade para com toda a gente. O momento em que pagamos é o momento da verdade. E nesse momento temos de compreender que defender a liberdade e lutar contra os que lutam contra a Ucrânia terá um custo. E os políticos devem ter a coragem de explicar ao povo que este custo tem de ser aceite, caso contrário o custo será muito maior".


Agora finalmente começo a perceber. Esta entrevista é muito elucidativa. A Europa está mais forte que nunca? Se calhar é por isso que a Itália produziu hoje as declarações que se seguem:

Mais armas para a Ucrania? Não. Significariam mais mortes, mais guerra, mais fome, disse Salvini.

Também o partido democrata (PD), a principal força de centro-esquerda no país que, até agora, tem apoiado a linha mais dura de Draghi, está a revelar sinais de divisão interna e de uma mudança gradual de posição.

Draghi deveria dizer a Biden para não aumentar as tensões, disse no domingo Graziano Delrio do DP, acrescentando que um acordo negociado era a única opção viável.

O líder da DP, Enrico Letta, disse ao "Corriere de la Sera" esta segunda feira que a Europa não se deve permitir ser liderada pelos Estados Unidos, apelando aos cinco maiores países da UE que fossem primeiro a Kiev e depois a Moscovo.


Se calhar foi por isso que o Presidente Macron disse ontem, que a entrada da Ucrania na UE vai demorar decadas.

Se calhar foi também por isso que treze países da UE votaram contra as alterações à constituição europeia.

Se calhar é por isso que não se entendem sobre as sanções ao petróleo e gás russos.

Se calhar foi por isso que o sexto pacote de sanções caíu por terra.

Se calhar, os BRICS têm alguma coisa a ver com tudo isto.

Se calhar, os dinheiros congelados da Rússia, do Iraque, do Afeganistão, da Síria, da Líbia, etc, não vão servir para a reconstrução da Ucrania.

Se calhar, o verdadeiro foco desta guerra está completamente desfocado.

Se calhar!