quarta-feira, janeiro 10, 2007

SAUDADE




Nem sempre o que se coloca diáriamente num blog, tem a ver com crítica.
Há dias que anoitecem nostálgicos, estados de alma que se instalam insidiosamente sem que a gente dê por isso. Este é um deles.
Li o blog do Manuel, vi coisas que ele escreveu e de repente pus-me a pensar.
Tenho saudades de Benguela e dele em Benguela. Dele e de alguns outros e outras.
Como é que teria sido a nossa vida, se estivessemos lá? Provávelmente estariamos a estas horas a ver um filme no Kalunga e depois iriamos com as famílias cear no Tan-Tan, junto ao Monumental.
Prazeres simples, calorentos, que nos faziam completamente felizes.
A Europa dá muito trabalho. A mão de obra para ser feliz é muito elaborada!
Somos todos assim. Ou, quase todos. Alguns de nós sentem-se bem aqui.
Nós, temos os pés aqui e a alma toda esticada pela distância. E, não há como equilibrar isto. E, não há como explicar isto.
E, é difícil viver com a alma assim. De tão esticada, há dias em que parece que rasga. Mesmo nos melhores dias, as coisas continuam a não correr totalmente bem.
Sou eu apenas a divagar, desabafar devagar, mas tenho a certeza que não estou sózinho!

4 comentários:

Manuel Sampayo disse...

Meu caro,

Gostaria de ter escrito isto:

"Nós, temos os pés aqui e a alma toda esticada pela distância."

Bonito. Muito bonito. Acho que nenhuma outra imagem, que eu conheça, traduz melhor a nostalgia e dor daqueles que, como nós, viveram em Angola. Mas pelo meu lado de uma coisa tenho a certeza: se tivesse os pés em Angola a minha estaria também "esticada pela distância" que me separaria de Portugal. Alíás, era o que me acontecia quando lá estava. E "isto" - este "só estar bem onde não estou" - é prova de que sou mesmo português. Não há nada a fazer.
E não sei se o mesmo não se passaria contigo, meu caro.

Havemos um dia de ir cear ao Tan-Tan e rever o Cherhez L´Idole ao Kalunga!

Um grande abraço

Susana disse...

Pai

Também eu, como o Manel, gostaria de ter tido a ideia da "alma esticada pela distância". É brilhante e, parece-me, a melhor de todas as explicações para aquilo que sentes, talvez uma nova definição de saudade. Se algum estrangeiro alguma vez me perguntar o que significa saudade, respondo-lhe que houve alguém que, finalmente, a soube definir, e que significa ter a alma toda esticada.
De modo que, tendo tu a alma tão esticadinha que chega a rasgar, temos que tratar disso de vez em quando, e lá vais tu contando histórias que cosem a alma, e lá vais tu de avião ver se dás um pouco de descanso a essa espécie de pele esticada que, ao aproximar-se de solo angolano, volta ao sítio e deixa de doer.
Por isso, por favor, continua a ir lá, continua a contar-me histórias, a mostrar-me fotografias, e, sobretudo, passa esses sentimentos à tua neta que aí vem, para que ela seja uma boa pessoa, ok?

Um beijo
Susana

João Abreu disse...

Henrique, fiquei atordoado como a saudade é assim tão de dor e amaciada pelo correr das horas. Estou orgulhoso e se visse a agora a tua Querida filha Susana abraçava-a tanto e pedia-lhe que tambem me ajudasse porque tenho as lagrimas nos olhos pelo Enorme que ela é. Obrigado Querida Susana e um xi-coração para ti um abraço ao Manel. Obrigado por seres tão Grande. Parabens por tudo Henrique.
Necas

Teresa Couceiro disse...

Para já, as minhas desculpas por estar a meter areia numa engrenagem tão delicada como a da dor da saudade, seja ela do que/de quem for.
Susana, o teu comentário fez-me engolir em seco. Gostei de te ler.
Muito obrigada a todos por me terem feito compreender o que é isso da "alma esticada" em relação a Angola. Por um lado, como vos invejo.
TC