sexta-feira, março 20, 2009

OPINIÕES II

Eu quero escrever esta carta. Para que seja perceptivel, é preciso ler mais abaixo o "post" OPINIÕES e ver o comentário.
Primeiro, quero mostrar todo o meu orgulho por ter amigos assim. Daqueles com quem a gente pode discordar, sem beliscar a amizade profunda que nos liga.
Depois, quero discordar concordando.
Claro, que sou fã de Borges. Claro que sou fã da boa literatura europeia, mas fico por aqui.
Falando dos escritores de expressão lusófona, apenas me cabe dizer, que não retratam de todo apenas a literatura regional. O que mais me encanta neles, e aí começa a discórdia, é o seu lado onírico, mágico, imaginativo, jovem, sem fronteiras. Que os coloca ao lado de um Sepulveda por exemplo.
Comparar Mozart com Tom Jobim ou com os Beatles? Absolutamente.
Dentro do tempo julgado conveniente, estarão no mesmo estatuto.
Daqui por 500 anos, todos se lembrarão de Mozart, mas também se lembrarão de Jobim e dos Beatles, como se lembrarão de todas as obras intemporais.
Como se lembrarão de Eça de Saramago, de Luandino.
Embrulha...mas desta vez um enorme abraço de amizade.

GED

3 comentários:

maria de lurdes disse...

Gostaria de intervir pela 1ª vez neste blog de outra maneira, mas não resisti à "polémica" sobre Ondjaki.De facto, estou parcialmente de acordo com F.Marta, porque também eu,seja por formação académica,seja por
(de)formação profissional,me identifico muito mais com escritores "ocidentais". Não passo sem Eça(que exagero!), não gosto de Saramago (que heresia!), gosto de Joyce ou Oscar Wilde (que fino!), revisito Goethe(que snob!), por exemplo. Além disso, não tenho referências africanas, nunca fui a África (ao que parece, não sei o que perco) e estou a iniciar-me na literatura dos tais escritores regionais, como Luandino e Ondjaki. Por isso, nesta fase só poderei dizer que discordo de F.Marta e Sampas, porque não preciso do reconhecimento internacional de um escritor para gostar de o ler, para me encantar, para que a sua leitura desperte em mim emoções encantatórias,para me sentir tocada no recôndito da alma. Gosto de manipular (no sentido positivo) palavras e sentimentos e presto homenagem a quem o faz magistralmente. Acho sublime os "varredores de tristezas" (também quero um; onde adquiri-lo?), "encharco-me de tardes" (imagino que seja maravilhoso perante os imensos espaços africanos), subscrevo incondicionalmente os "malmequeres só de bem querer"(que bom seria se não fosse utopia!). E que dizer do poema "Haikai", que me diz tanto em tão poucas palavras? Não preciso ainda do reconhecimento planetário para gostar dos poemas de F.Marta "Saudade" (24.02) e "O tempo que sonho..." (12.02).
Tratar os grandes temas relacionados com o Homem através da literatura é importante e incontornável, mas acho que a Arte, em qualquer das suas formas, para além do dever de um objectivo de intervenção na sociedade, também vale por si só. É a "Ars artis" dos Romanos , a Arte pela Arte, que é capaz de aflorar o âmago da alma, sem explicações ou interpretações verbalizadas, onde vale apenas a contemplação, a fruição, a magia e a criatividade mencionadas pelo dr. Henrique. Por isso, não importa a idade ou experiência do autor. O unanimismo gerado pela atribuição de prémios ou pela crítica especializada poderá significar, para além do justo mérito, a expressão de outros interesses.
E que tal estes versos de Ondjaki, retirados de vários poemas?:
"para iluminar mundos
invoco pirilampos".
"o pirilampo é a lanterna do poeta"
"o pássaro
ganhou enjoo para chão?"
"um só silêncio
pode ser nossa voz não dita
ainda nunca dita."
"para ecoar um silêncio
bastou gritarmo-nos para cá dentro
num gritar aprofundo".
O dr. Henrique refere:
"Pirilampos indecisos
boiando na noite".
Parabéns aos três "litigantes". Que bela amizade, que sai enriquecida com divergências de opinião!
Perdoem a pretensão destes despretenciosos comentários de uma neófita que gosta de ler.
Um abraço.
Lurdes Marques

GED disse...

Mais uma amiga que se junta e, com um comentário demolidoramente...certo.
Embrulhem Sampas e Fernando e respondam.
Maria de Lurdes, continue e junte-se a nós com mais frequência.
Esta amizade vem do fundo dos tempos...indestrutível.

F.Marta'seveN disse...

É sempre com grande prazer que recebo o regresso dos amigos, mesmo correndo o risco de ser algo egoísta. O Henrique estava muito bem lá na Serra, fazendo aquilo que mais gosta – ler, escrever e ouvir música (quem não gosta?). Deleitando-se com uma paisagem e… sonhando com outra. Não sei se ele seria capaz de estar por lá muito mais tempo. O seu irrequieto modo de estar na vida não o permitiria, por muito que esquiasse…Faltar-lhe-ia o espaço. As anharas sem fim, onde corriam desenfreadamente as zebras, em direcção às montanhas distantes. A serra coberta de neve, mesmo sendo um espectáculo magnífico, iria parecer-lhe muito próxima, limitada na distância e no espaço de que tanto necessita. Faço votos que esses dias tenham servido para o retempero de forças necessárias para enfrentar o complicado dia a dia e não lhe tenham aguçado ainda mais o apetite de regresso às origens, lá, mais a Sul.
A Maria de Lurdes que em jeito de boas vindas escreveu:
“Bom regresso e coragem para enfrentar a próxima fatia de realidade, até ao retorno às origens em Novembro.Com que então, um angolano também aprecia a neve? E porque não? Um cidadão do mundo sabe disfrutar das coisas boas que esse mesmo mundo lhe proporciona. Esta observação é decerto uma banalidade, mas os clichés reflectem as grandes verdades da vida.”
O Manel, o “Sampas” encontrou esta poética forma de se despedir e desejar boas férias ao amigo Henrique:
"Meu querido amigo, folgo muito em saber que vais voltar à neve... Fazes bem! Mais tarde, eu sei, voltarás ao Sul... (eu também gostaria de voltar...) Uma alma grande é aquela que é capaz de amar uma coisa e, muitas vezes, o seu contrário. E é maior ainda quando o admite e o não esconde."
Lindas e diferentes formas de expor e pontos de vista não muito distantes.
Aqui poderá levar a vantagem o Manel, pois conhece o visado há mais tempo, muito tempo, podendo assim personalizar e aproximar mais as suas opiniões (com visível carinho mas, ainda assim, aproveitando para dar - quase sempre - uma ou outra “suave” alfinetada). A Lurdes tem de generalizar mais, mas parece-me estar agora, à medida que vai entrando no Noite Vertical, atentando a certos “estados de espírito”, paixões ou fixações (como diz e muito bem o Manel), do Henrique. Agora, voltando à “nossa questão” não é muito fácil discordar do Henrique que, naquilo que escreve consegue geralmente transmitir algo que me é muito caro e que se aproxima muito da minha forma de sentir as coisas. Em relação aos escritores revejo-me mais no que opinou o Manel, este outro que escreve muitíssimo bem e com um raro toque poético. Como disse o Henrique (penso eu) e muito bem: - O Manel é “era” bancário por necessidade e escritor por vocação, comentário que eu li algures e com o qual não posso deixar de estar, e muito, de acordo, depois de ler umas coisas dele. Espero que aproveite a disponibilidade que agora tem para se dedicar áquilo que mais gosta e que lhe dá mais prazer. E que dizer da Lurdes? Que escreve bem? Em boa hora apareceu. Falo por mim e é também essa a opinião do Henrique, que não sei porquê me parece ter um certo gozo nos embrulhos que vou fazendo…Já agora, Henrique, ter de aturar a Lurdes…, também te aturo a ti! Embrulha. Onde andará o Manel? Não muito longe com certeza! Talvez ao “Calhas” agora na sua nova situação, fazendo qualquer coisa “Avulso” e muito bem feito. Aguardemos em relação à Lurdes o parecer do nosso amigo, pois, segundo aquilo que eu conheço e que já vem de há muito tempo, de família, ninguém melhor a receber… O Manel, o Sampas - Manuel Sampaio é um daqueles amigos que está lá…Uma amizade não vivida mas sentida. Há muita coisa que nos aproxima e, se não bastasse o facto de termos vivido (com muita intensidade) numa pequena e única terra chamada Cubal, uma cidade do distrito de Benguela, em Angola, com muitos amigos comuns, a grande amizade dos nossos pais seria, por si e só, para mim, o suficiente para o considerar como tal. Se a Lurdes quiser conhecer melhor o Sampaio, é só dar uma espreitadela ao Blog “Avulso & ao Calhas”. Quanto à minha pessoa, passo a apresentar-me: Cinquentão, algo (bem) pesado, com uma boa dose de mau feitio, nem sempre fácil de aturar, mas, regra geral, bem-humorado, não bipolar (penso eu). Amigo, pronto a ajudar, por vezes incompreendido, feliz mas insatisfeito, sonhador, esperando D. Sebastião… Um pouco (ou talvez mais) preguiçoso, desiludido com alguma gente…triste perante o desrespeito pelo próximo, revoltado com tanta ignorância e estupidez… espantado com o sem número de gananciosos, insaciáveis, autistas (sem ofensa) e estúpidos… Eles e também nós…que deixamos!
Também, como o Manuel, acabei por ser bancário quando gostaria de ter sido tanta coisa…músico, arquitecto ou arqueólogo, ou tudo isso, mas a preguiça…a matemática e o deixa andar…
Penso que assim a Lurdes que julgo, e nunca o contrário me passou pela cabeça (Deus me livre), isenta, já poderá fazer uma pequena ideia com quem está a lidar (boa gente acima de tudo). Mas, cuidado com os (maus) feitios. O Henrique, já conhece…

E a Anabela, que é dela?

Feito às pinguinhas e enviado hoje para não cansar muito.
Lurdes, quando puder, e em relação ao “assunto” que ainda não consegui abordar convenientemente, voltarei à carga! Abraços
Fernando Marta